Subjetificando a cidade amigável às crianças

Sven De Visscher, Child In The City

 

Em seu discurso ao Child in the City 2016, em Ghent, o urbanista e professor de serviço social, Sven De Visscher, fez a pergunta mais fundamental para esse movimento: o que é que torna uma cidade amigável para uma criança?

O que torna uma cidade (uma comunidade, um condado) amigável para com crianças? Em todos os nossos esforços para criar espaços amigáveis para as crianças, para organizar atividades amigáveis para as crianças, ou para defender agendas políticas amigáveis para com as crianças, às vezes ignoramos essa questão fundamental.

Há dois paradigmas que inspiram definições possíveis da cidade amigável à criança. O primeiro paradigma está enraizado na psicologia evolucionária e procura uma objetificação da cidade amigável em orientações gerais universais para proteger as crianças contra influências maliciosas do mundo moderno que são mais prolíficas nas cidades, e para remodelar a cidade ao nível da criança. Essa relação amigável entre a cidade e a criança aparece, nesse paradigma, como o resultado de intervenções profissionais na vida das crianças, com o melhor interesse delas em mente.

O segundo paradigma está enraizado na sociologia e na pedagogia crítica e mira em uma subjetificação da cidade amigável. De um modo, responde a uma falha no raciocínio do primeiro paradigma: quem tem o direito ou poder para determinar o que é do melhor interesse para a criança? O significado dessa relação amigável com a criança pode ser diferente para grupos sociais e culturais diferentes, e pode variar em tempo e espaço.

As crianças como cidadãs urbanas

Como resultado, a cidade amigável é tida como um processo de aprendizado compartilhado entre a criança e a sociedade, e procura promover a posição da criança como cidadã urbana. A relação amigável com a criança não é principalmente uma característica do resultado de intervenções profissionais, mas sim do processo pelo qual essas intervenções são moldadas. Para tornar essa ideia mais concreta, eu sugiro cinco ambições para as cidades amigáveis: reconhecer todas as crianças como como cidadãs urbanas; oferecer chances iguais para cada criança na cidade; envolver as crianças como co-pesquisadoras da vida urbana e da cidade; conectar os mundos das crianças e o resto da cidade; entender a cidade amigável como o resultado de um processo de aprendizado contínuo, aberto e compartilhado entre atores urbanos diferentes.

Essas são ambições; portanto, não orientações ou critérios. Cada uma das ambições propostas sugerem uma resposta às questões sobre o que uma cidade amigável deve contribuir na posição das crianças na cidade, e como deve afetar sua experiência de vivência na cidade.

Desse modo, talvez possamos alcançar uma estrutura para cuidar dessas cidades amigáveis que não seja normativa. Essa aproximação não entregará, talvez, objetivos estratégicos inteligentes ou resultados definidos. Pode, no entanto, convidar ao desenvolvimento de uma estratégia local e contextualizada para uma aproximação mais subjetiva no planejamento de uma cidade amigável com as crianças; uma que será única, refletindo a singularidade de sua comunidade e de suas crianças.

Foto: Charles Pieters