Crianças sírias sofrem com níveis alarmantes de trauma e angústia – relatório

Karen McVeigh, The Guardian

As crianças na Síria estão sofrendo de “stress tóxico”, uma forma severa de trauma psicológico que pode causar prejuízos vitalícios, de acordo com um estudo que mostra um aumento em tentativas de suicídio e auto-flagelação entre crianças.

 

Um relatório do Save the Children e suas agências parceiras na Síria pinta a cena das crianças do país, das quais 5.8 milhões necessitam de auxílio, por causa de uma guerra que chega em seu sexto ano semana que vem. Os autores e autoras do estudo, o maior do tipo a ser realizado durante um conflito, alertaram que a crise de saúde mental da nação havia alcançado um ponto alarmante, no qual “níveis alarmantes” de trauma e angustia entre as crianças poderiam causar danos permanentes e irreversíveis.

 

Mais de 70% das crianças entrevistadas experienciaram sintomas comuns de “stress tóxico” ou stress pós-traumático, como fazer xixi na cama, descobriu o estudo. Perda de fala, agressão e abuso de substâncias são comuns também. Cerca de 48% dos adultos relataram terem visto crianças que perderam a habilidade de falar ou que desenvolveram impedimentos de fala desde o início da guerra, de acordo com o relatório, entitulado Invisible Wounds (Feridas Invisíveis).

 

Mohammed, um voluntário da Shafak, parceiro da Save the Children em Idlib, disse que as crianças vivem em estado de constante ansiedade: “notamos que elas estão sempre estressadas e reagem a qualquer barulho estranho – se uma cadeira se move ou uma porta bate – por causa de seu medo do som de aviões e foguetes. As crianças estão cada vez mais isoladas e não gostam de participar em nossas atividades, e nas crianças mais novas estamos vendo muitos casos de urinação involuntária”.

 

Firas*, o pai de Saeed*, três anos, disse: “meu filho acorda com medo no meio da noite. Ele acorda gritando. Uma criança foi morta na frente dele, então ele começou a sonhar que alguém estava querendo matá-lo”.

 

A maioria das crianças entrevistadas mostrou sinais de “stress emocional severo” e 78% delas sentia luto e tristeza extrema algumas horas. O estudo focou em 458 crianças, adolescentes e adultos, e foi realizado entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017, em sete das 14 província da Síria. Também revelou:

 

  • 51% dos adultos entrevistados disseram que os adolescentes estão apostando nas drogas para lidar com o estress
  • 59% dos adultos disseram conhecer crianças e adolescentes que foram recrutados para grupos armados. Quase metade conhecia crianças que trabalham em checkpoints ou quartéis
  • Uma em cada quatro crianças está em riso de desenvolver um problema de saúde mental

 

Dos adultos questionados, 60% citou a perda da educação como um dos maiores impactos na vida diária de suas crianças. Desde que a guerra começou houve mais de 4.000 ataques à escolas na Síria, de acordo com a UNICEF.

 

As entrevistas, feitas pela equipe do Save the Children e por parceiros e psicólogos treinados, foram realizadas principalmente em áreas mantidas pela oposição, incluindo Aleppo, Damascus, Dara’a, Hasakah, Homs e Idlib. A organização não é capaz de operar em lugares mantidos pelo governo ou pelo Estado Islâmico (EI), mas a organização disse que os problemas vivenciados pelas crianças nessas áreas devem ser similares. Dois terços das crianças perderam um ente querido, teve sua casa bombardeada ou sofreu feridas de guerra.

 

Em Madaya, que está sitiada desde meados de 2015, a equipe médica relatou que ao menos seis crianças, a mais nova com 12 anos, e sete adultos tentaram suicídio em apenas dois meses.

 

Todos os grupos focados em crianças e 84% dos adultos citaram “um sentimento imenso de insegurança” como a maior causa dos altos níveis de stress entre as crianças.

 

Hala, uma professora em Madaya, disse: “as crianças preferiam estar mortas, e estar no céu quentinhas, alimentadas e brincando. Eles desejam ser feridas por um atirador, porque se forem feridas elas irão para o hospital e comerão o que quiserem”.

 

No entanto, mesmo com altos níveis de necessidade, em algumas regiões de mais de 1 milhão de pessoas, há somente um psiquiatra.

 

Alexandra Chen, especialista em proteção infantil e saúde mental da Universidade de Harvard, disse que o stress tóxico é a forma mais perigosa de resposta do stress, quando as crianças experienciam adversidades fortes e prolongadas sem um apoio adulto adequado.

 

“É provável que isso tenha um impacto vitalício e devatador na saúde mental e física dessas crianças, interrompendo o desenvolvimento do cérebro e outros órgãos e aumentando o risco de doenças do coração, abuso de substâncias, depressão e outros problemas de saúde mental na vida adulta”, disse Chen.

 

Ela disse que com o fim da violência e com o apoio certeiro, as crianças podem se recuperar.

“No entanto, a crise de saúde mental infantil está alcançam um ponto alarmante na Síria enquanto as estrutruas de apoio familiar e os serviços oficiais estão colapsando.”

 

O relatório pediu por um cessar fogo e para que todos os lados parem de usar armas explosivas em áreas populosas, escolas e hospitais, bem como o fim das táticas de isolamento, e acesso humanitário irrestrito à todas as áreas. Também pediu que doadores se comprometam em ajudar a saúde mental das crianças na Síria.

 

A doutora Márcia Brophy, conselheira psico-social para o Oriente Médio do Save the Children, disse: “arriscamos condenar uma geração de crianças a uma vida de problemas de saúde físicos e mentais. Precisamos nos assegurar que as crianças que já perderam seis anos de suas vidas para a guerra não tenham que perder seu futuro também”.

 

Cerca de 13.5 milhões de pessoas na Síria, incluindo 5.8 milhões de crianças, estão necessitando auxílio, disse o Save the Children. Cerca de 4.8 milhões de pessoas estão presas em áreas sitiadas e de difícil acesso.

 

Ao menos 250.000 pessoas morreram e 4. 9 milhões, sendo 2.3 milhões crianças, já saíram do país, a maioria para a Turquia, Jordânia, Líbano e Iraque.

 

 

*Nomes trocados para proteger identidades

Assista: entrevista de Ana Estela Haddad sobre desenvolvimento infantil e o programa #sp95

Em programa de TV que foi ao ar dia 22 de fevereiro de 2017, o Observatório do Terceiro Setor, entrevistou Ana Estela Haddad, ex-coordenadora do Programa São Paulo Carinhosa, a respeito do desenvolvimento infantil, educação para igualdade e sobre a coordenação que realiza à frente do nosso programa SP95. O SP95 criou o blog A Cidade e a Criança, em parceria com o Instituto Brasiliana, e financiamento da Fundação Bernard van Leer (BVLF).

O SP95 é inspirado na solução Urban95, da BVLF, que estimula os gestores públicos a tornarem as cidades lugares mais amigáveis às crianças.

“Temos um projeto que decorreu de uma intervenção da São Paulo Carinhosa [programa da gestão municipal passada] na região do Glicério no centro da cidade, lá temos muitas famílias em situação de cortiço, que muitas vezes são piores do que a favela. É um aglomerado de pessoas onde falta privacidade, não tem espaço para brincar e estudar. É difícil para as crianças”, disse Ana Estela.

Ela continuou: “Esse trabalho acabou chamando a atenção de uma fundação que é a Fundação Bernard van Leer, uma fundação holandesa que há mais de 40 anos trabalha com a questão da infância em todo o mundo. E eles estão lançando um programa chamado Urban 95, que representa o espaço urbano a partir do olhar de uma criança que tem 95 centímetros de altura. […] Se uma cidade for boa para uma criança de 3 anos de idade ela será boa para todo mundo.”

Dessa experiência surgiu o SP 95, que conta com a parceria do Instituto Brasiliana que trabalha com arquitetura, cultura, desenvolvimento urbano e, agora, a questão da infância.

Assista e saiba mais:

[Assista] Painel Infância: Primeiros Passos e Equidade, marca o lançamento do Urban95 na América Latina

O blog A Cidade e a Criança esteve junto com a São Paulo Carinhosa, a Fundação Bernard van Leer e o Instituto Brasiliana na 5a Cúpula Internacional de Líderes Regionais e Locais de Cidades em Bogotá na Colômbia.

Com o mote ‘Vozes locais para um mundo melhor’, um dos temas debatidos na Cúpula foi a temática da primeira infância e o desenvolvimento saudável e inclusivo dessas crianças nas cidades do mundo todo.

No evento foi realizado o Painel Infância: Primeiros Passos e Equidade que contou com a participação da Ana Estela Haddad, coordenadora do programa municipal São Paulo Carinhosa e também com a presença, entre outras, de Dharitri Patnaik, representante da Fundação Bernard van Leer da Índia e mestra em Assistência Social.

“Para vermos como uma cidade é boa, temos que analisar a situação das crianças. Quais são os indicadores? Esse é o nosso trabalho no Urban95!”, disse Patnaik. “O que nos levou a fazer essa campanha de mudança política foi o fato de que as grandes políticas não chegam ao locais com moradias precárias. Nem as políticas nacionais. Quantos de vocês aqui sabem se suas políticas públicas mencionam as crianças?”

Patnaik conta que foi realizada uma campanha com crianças grandes em sua região e que agora atua em 11 cidades. Elas conversam com o prefeito e dão sugestões sobre suas comunidades. O que se assemelha com a escuta das crianças da região do Glicério realizada pela prefeitura de São Paulo e pela São Paulo Carinhosa, que ouviu as crianças sobre o que elas queriam para a sua região.

Isso mostra a importância da escuta das crianças em qualquer lugar do mundo. “Como a cidade pode ser um motivo de orgulho para as crianças? Mais amigável também?”, ela questionou.

E a representante da FBvL arrematou: “A medida que trabalhamos com as cidades pretendemos transformá-las para que sejam boas para as crianças!”

Assista o vídeo editado completo do Painel:

Entrevista com Leonardo Yanez: “A pobreza é uma das piores formas de violência à criança, é limitante. É preciso olhar os problemas da primeira infância que estão invisíveis, onde as políticas públicas não vão ou chegam com dificuldade”

De Bogotá, no blog Nossa Infância, Estadão

Durante a abertura de um dos dias do workshop Desenhando Cidades para o Desenvolvimento Infantil, de 12 a 14, em Bogotá, o consultor sênior representante da América Latina para a Fundação Bernard van Leer fez o seguinte alerta: “A maioria das crianças nas grandes cidades da América Latina está crescendo em meios urbanos sem capacidades para o seu desenvolvimento integral”. Yanez destacou que a Fundação acumula bastante conhecimento sobre educação e modelos curriculares mas que é preciso ir além e ampliar a escala de políticas públicas e de ações sociais efetivas para o desenvolvimento integral da infância, não somente de ações bonitas.”Contamos com métodos de qualidade para orientar pais e mães, cuidadores e mestres sobre as melhores formas de cuidar de uma criança desde o seu nascimento e até sua incorporação no sistema educativo formal, mas ainda neste campo há um grande desafio. Como ampliar a cobertura dos programas para chegar aqueles que mais  necessitam, sem sacrificar a qualidade dos serviços? “, questiona Yanez, nesta entrevista. Com 40 anos de trabalho somente com a primeira infância, a conversa com ele é sempre generosa e didática. E ele lança uma preocupação. Mesmo após muitos avanços nas políticas que reduziram a mortalidade infantil no mundo, há ainda muito trabalho para construir uma base de desenvolvimento integral saudável, como a redução da violência na vida das crianças, a redução da morbilidade infantil, uma melhor saúde, redução de acidentes.

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Barreirinhas, Amazonas, local onde a Fundação apóia um programa de visitas de agentes comunitários de apoio à infância

“A pobreza é uma das piores formas de violência porque ela é limitante. A falta de algo fundamental é uma violência”, afirmou. No entanto, ele disse que ainda é cedo para ter resposta prontas para todas as ações de intervenção na cidade. “É preciso aprender mais sobre como as cidades podem se tornar mais favoráveis ao desenvolvimento infantil”.

Com formação em psicologia, Yanez foi o diretor geral de coordenação do Programa Social do Ministério da Família e do Desenvolvimento Social (1993-1994) e Diretor Nacional da Educação Preescolar do Ministério da Educação, na Venezuela (1994-1999). Também foi responsável por integrar o escalonamento de programas da educação infantil e creche naquele país. Atuou como consultor independente da UNICEF, da Organização para os Estados da América (OEA), do Instituto Nacional de Planejamento da Venezuela e vários institutos autônomos. Ele iniciou seus trabalhos na holandesa Fundação Bernard van Leer no ano 2000, como Coordenador de Effectiveness Iniciative. Desde 2003, é especialista de programas e sênior da mesma organização holandesa, em Haia. Nos últimos 10 anos tem visitado o Brasil constantemente e conhece várias lideranças.

Acompanhou e estimulou a criação da Rede Nacional da Primeira Infância, a formação da Política da Primeira Infância na Cidade de São Paulo (São Paulo Carinhosa) e a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância. Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade ao Nossa Infância, Yanez comenta os desafios e a importância trazidos pela prioridade à infância, com ênfase na vida nas grandes cidades.

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Leonardo Yanez ministra worshop “Desenhando Cidades para o Desenvolvimento Infantil e Saudável”: técnica inclui as experiências dos participantes

Nossa Infância – O senhor trabalha em uma das mais antigas fundações que investem no desenvolvimento infantil, com sede na Europa, a Bernard van Leer Foundation. Quais focos de trabalho que, em particular, caracterizam o modelo de atuação desta instituição em relação a de outras organizações mundialmente conhecidas por investir nas crianças?

Leonardo Yanez – A Fundação investe exclusivamente na primeira infância e a maioria das outras fundações têm alcance mais amplos a outros segmentos da população. O foco dos investimentos são iniciativas que podem converter-se em política pública e abarcar grandes massas da população, com soluções que podem ganhar maior escala. Outro ponto importante é que a Fundação não opera diretamente seus projetos. Atua associada com as organizações locais.

NI – Em  2015, estive em uma reunião em Haia, na sede da Fundação, quando foi discutido modelos de gestão e de investimentos para os próximos anos. O senhor poderia comentar no que isso resultou?.

LY – Basicamente, temos hoje, após muito tempo de investimento, três soluções de gestão: Parent +, de projetos de fortalecimento às famílias, o Urban95, que procura melhorar a cidade para as crianças e o Building Blocks for Scaling, que fomenta associações locais.

NI – Nesse contexto, quais são os desafios para melhorar a vida das crianças nas cidades?

LY – A maioria das crianças nas grandes cidades da América Latina está crescendo em meios urbanos sem capacidades para o seu desenvolvimento integral. A pobreza é uma das piores formas de violência à criança, é limitante. É preciso olhar os problemas da primeira infância que estão invisíveis, onde as políticas públicas não vão ou chegam com dificuldade. Mesmo após muitos avanços nas políticas que reduziram a mortalidade infantil no mundo, ela existe em vários países, há ainda muito trabalho para construir uma base de desenvolvimento integral saudável, como a redução da violência na vida das crianças, a redução da morbilidade infantil, uma melhor saúde, redução de acidentes.

NI – Como funciona na prática o Parent +, temos exemplos no Brasil?

LY – A  Solução Parent+ consiste em identificar plataformas existentes em serviços públicos ou privados, aos quais se possam agregar-se um componente de orientação às famílias com crianças menores de três anos (desde a gestação). Por exemplo, serviços de visita domiciliar que unam serviços de saúde, treinamento em paternidade e maternidade a jovens pais em cursos vocacionais, e etc. No Acre e Amazonas, em uma aliança com United Way, Ministério de Saúde, governos estaduais e municipais e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, estamos apoiando o processo de escalonamento de um programa de visita às casas, feito por agentes comunitários de saúde treinados para assistir às famílias com crianças pequenas.

NI – O Urban 95 dialoga com o futuro das grandes cidades ?

LY – Sabemos que o ambiente físico onde crescem as crianças pequenas determina em grande medida seu desenvolvimento integral. O Urban95 parte do princípio de que grandes cidades que se planejam para responder às necessidades das crianças pequenas e mulheres gestantes serão apropriadas para todos os cidadãos.

NI – Existe um contexto específico que motivou a criação do Urban95 principalmente para a América Latina ou basicamente os desafios impostos pela urbanização?

LY – Na América Latina, temos avançado muito nos desenhos curriculares da educação infantil na primeira infância. Contamos com métodos de qualidade para orientar a pais e mães, cuidadores e mestres sobre as melhores formas de cuidar de uma criança desde o seu nascimento e até sua incorporação no sistema educativo formal. Neste campo há um grande desafio. Como ampliar a cobertura dos programas para chegar àqueles que mais  necessitam sem sacrificar a qualidade dos serviços?

Indubitavelmente, a BvLF pode contribuir com este conhecimento se aprendermos mais sobre como levar um programa de primeira infância a uma maior escala mantendo sua qualidade.  Convênios com governos, gestores sociais e científicos estão nos ajudando a aprofundar nesta matéria através de ações diretas no terreno da legislação que possibilita assegurar pressupostos ao setor público.

Por outro lado, há mais de 40 anos de ensaios e projetos em associação, centenas de organizações e contrapartidas de organizações, contrapartidas em mais de 50 países do mundo nos tem deixado também outras lições: o desenvolvimento integral de uma criança não pode ser garantido somente com um bom serviço de cuidado e acesso a um bom currículo educacional.  A criança vive em um mundo complexo, que inclui suas relações imediatas com o ambiente físico e com o entorno social que estimula ou limita as capacidades de exploração, sua seguridade social, pessoal e suas destrezas para se relacionar positivamente com outras crianças ou adultos. Ainda os desafios dos programas de desenvolvimento infantil seguem sendo muitos, a fundação é consciente de nossas numerosas organizações nacionais e internacionais chamadas para respostas a essas necessidades. Baseadas nesta nova conjuntura, decidimos explorar novos desafios da infância que não têm sido suficientemente investigados e que requerem atenção pela magnitude de seu impacto no desenvolvimento infantil.

NI – Quais são os próximos passos do Urban95 na América Latina?

LY: Neste momento, estamos consolidando uma metodologia de mapeamento de quatro cidades na América Latina conforme os parâmetros da cidade que cuida, proposta por Marta Román e definida para a Fundação por Irene Quintáns: a cidade que cuida, que é uma cidade que cuida, é segura (no sentido de que as famílias tenham possibilidade de caminhar e usar transportes com segurança, e a cidade que é pública. Iniciamos projetos de organizações e movimentos cidadãos que foram capazes de fazer propostas urbanas e servir de interlocutores  válidos para coordenar a execução  de planos municipais  que afetam as famílias mais vulneráveis.  Finalmente, aspiramos cooperar com os governos municipais destas cidades para criar sinergia entre governos e comunidades na busca de soluções viáveis, efetivas e escaláveis, que garantam um começo justo na vida de uma criança.

NI – E a terceira solução da BvLF fala de aumentar a escala do que dá certo. É isso, não?

LY – Building Blocks for Scaling entende que é necessário construir alianças entre diversos setores de uma sociedade para dar respostas oportunas às necessidades de desenvolvimento da primeira infância. Junto ao Diálogo Interamericano e ao Banco de Desenvolvimento Interamericano, levamos adiante uma campanha para promover a avaliação de programas de primeira infância como primeiro passo para consolidar políticas públicas.

NI – Do que vive hoje a Fundação e o que os investidores da Fundação cobram em resultados de vocês?

LY – Foi construído um endowment (fundo de doação) com  a venda das empresas Van Leer, propriedade da Fundação nos anos de 1990.  A Fundação não tem investidores. É governada por meio de um corpo denominado Board of Trustees.(Conselho de Curadores).

NI – A neurociência comprova que, em nenhuma outra fase da vida, o desenvolvimento cognitivo se dá como dos zero aos três anos de idade, como estimular mais recursos na pauta da infância?

LY – Os primeiros anos da vida são muito importantes para o desenvolvimento humano. Durante esta fase se consolidam funções básicas do cérebro que deixaram um impacto em desenvolvimento ulterior. Os estudos da neurociência têm mostrado uma acelerada atividade neural que não se repete no resto da vida. No entanto, o desenvolvimento continua mais além destes anos, mediantes outras estratégias de reestruturação do cérebro. Por isso é importante que os fundos que invistam na primeira infância não sejam sobras de fundos dedicados a crianças maiores e adolescentes.

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Leonardo Yanez: “estamos buscando aprender mais sobre como as cidades poderão tornar-se mais favoráveis para o desenvolvimento infantil”

NI – Como são as parcerias da Fundação no Brasil? Com que cidades vocês atuam no momento?

LY – No momento estamos prevendo cooperação com duas cidades, São Paulo e Recife. Há pouco tempo começamos a apoiar estudos para conhecer o estado da técnica quanto às necessidades das famílias com menores de três anos e gestantes em situação de vulnerabilidade. Por meio de uma consulta a ser realizada em Bogotá, poderemos vislumbrar ações a seguir para que estas cidades possam adaptar seus programas e políticas às necessidades desta população.

NI – No caso do SP95, com São Paulo, o enfoque é uma região de Cortiços, podemos compreender que os desafios habitacionais são um dos principais eixos e a ocupação do espaço na cidade também?

LY – Em efeito, entre os elementos que vemos necessário abordar na América Latina, temos priorizado:  a) a necessidade de garantir o acesso a soluções de cuidado diário infantil de qualidade e adequados às necessidades de toda a família; b) a importância do acesso e a ocupação segura dos espaços públicos de recreação e encontro para essas famílias, e a proximidade com suas casas; c) a participação das comunidades no desenho ou reabilitação dos espaços públicos; e d) a qualidade da casa e sua adequação mínima para o desenvolvimento integral das crianças. O caso dos cortiços e de outros tipos de moradias precárias e informais nas grandes cidades são um desafio para o desenvolvimento infantil sadio. Sobre o tema da moradia, no entanto, esse foi eliminado do tema global do Urban95, a seleção de projetos nesse campo na América do Sul se realizou quando ainda estava listado. Creio que no caso das crianças em moradias precárias de São Paulo, o tema é vigente e afeta mais de 100 mil crianças no centro da cidade. A solução para o problema pode estar mais vinculado aos espaços públicos em seu entorno, a municipalidade de São Paulo levou adiante algumas iniciativas para melhoras as condições de habitação.

NI – Há quanto tempo o senhor trabalha com investimento na primeira infância e o que mudou de lá para cá em prioridade para o mundo?

LY – Tenho mais de quarentas anos dedicados a primeira infância em comunidades vulneráveis. Creio  que os grandes marcos foram a Convenção do Direitos das Crianças, os descobrimentos da neurociência sobre a importância dos primeiros anos e os estudos econômicos iniciados por Heckman (Nobel) que mostram a prioridade desta no desenvolvimento humano.

NI – Novos marcos legais de cuidados à infância têm avançado em todo o mundo. Por que mesmo com tantos avanços, nem sempre estes serviços de qualidade chegam às crianças?

LY – Eu acho que ainda muitos líderes do mundo não compreendem a importância da primeira infância. Ainda há muito a aprender sobre como passar informação às lideranças e a outros setores da sociedade que também têm um papel importante para o benefício das crianças. Até agora, os investimentos na infância ainda são muito pequenos.  Na minha opinião, um foco na família poderia ser a resposta econômica mais responsável.

NI – Nos materiais de difusão de conhecimento e informações da Bernard van Leer Foundation, há muitas boas práticas disseminadas de cuidados à infância. E o que fazer com elas?

LY – É preciso dar escalonamento dessas experiências sem perder a qualidade. Eles são o nosso foco.

NI – E quais são os desafios para ampliar essa escala de atendimento sem sacrificar a qualidade?

LY – Bom, primeiro precisamos trabalhar bem as fontes de financiamento. E isso se faz com umcurrículo pertinente que inclua os padrões de conteúdos nacionais mínimos necessários e que permita certa autonomia para sua adequação aos diversos contextos do país. Depois vem a fase da avaliação das intervenções, construção de um sistema eficiente de seguimento para detectar a perda de qualidade e iniciar as correções. É necessário ter um modelo de gestão que multiplique os  operadores do programa em nível local e que exija patamares mínimos de qualidade e custo. Ainda é importante um bom sistema de formação, incentivos e seguimento em serviço para pessoal necessário para colocar em marcha essa grande escala. Uma consulta política (com possibilidades de acordos público-privados onde seja necessário) para garantir a continuidade do programa mesmo na transição de ciclos eleitorais e mudanças de governo.

NI –  Até 2050, acredita-se, 66% da população mundial irá viver nas grandes cidades.

LY – É por isso, estamos buscando aprender mais sobre como estas cidades poderão tornar-se mais favoráveis para o desenvolvimento infantil e estamos buscando aprender mais sobre como estas cidades podem seguir um rumo favorável para as crianças.

NI – O senhor acha que o Brasil tem algo a ensinar para o mundo sobre primeira infância?

LY – O Brasil tem tido  grandes iniciativas que poderiam ser emuladas por outros países do mundo. Vários programas de visita domiciliar têm sido reconhecidos por seus resultados em diversos estados do pais.  igualmente posso dizer sobre o Brasil Carinhoso e sua contrapartida de investimento em estados e municípios.  A nova lei do Marco Legal da Primeira Infância também pode ser usada como exemplo. O desafio é ser colocada em prática.

NI – Quais são os planos da Fundação para o Brasil nos próximos anos?

Queremos oferecer apoio técnico para a massificação dos serviços de apoio da família com crianças menores de três anos vinculadas aos serviços de saúde e ao programa Bolsa Família, por um lado. Por outro, queremos mostrar as bondades de uma cidade para as crianças pequenas e que tais práticas podem ser copiadas por outras cidades no país e na região.

Veja também: Em Bogotá, Fundação Bernard van Leer apresenta Urban95 à América Latina: uma solução para redesenhar cidades mais saudáveis às crianças

Em Bogotá, Fundação Bernard van Leer apresenta Urban95 à América Latina: uma solução para redesenhar cidades mais saudáveis às crianças

Solução Urban95, da organização holandesa, se propõe a estimular o desenho de cidades para o desenvolvimento saudável das crianças pequenas. São Paulo foi uma das primeiras capitais da  AL a aderir, com a criação do programa SP95 

De Bogotá no blog Nossa Infância, Estadão
A Fundação Bernard van Leer (BvLF, da sigla em inglês), organização holandesa com 60 anos de apoio exclusivo a projetos e programas para melhorar a vida das crianças em mais de 50 países, aproveitou a 5ª Cúpula de Líderes Regionais Locais de Cidades, iniciativa do CGLU ( Governos Locais Unidos) , que ocorreu na última semana, em Bogotá (Colômbia), para apresentar a solução Urban95, um convite a líderes de países, municípios e urbanistas para a importância de desenhar cidades mais aptas ao desenvolvimento saudável das crianças.

Aproveitando a quinta edição da cúpula do CGLU, até hoje a primeira a anteceder e servir de preparatória para o HabitatIII, a Conferência Mundial da ONU em Desenvolvimento Sustentável, que só ocorre a cada 20 anos e teve início nesta segunda-feira, em Quito, a BvLF apresentou as linhas gerais de trabalho propostas pela solução Urban95 às lideranças de governo e integrantes de organizações e institutos de suporte ao desenvolvimento social da América Latina. A temática da infância dialoga com o tema da Cúpula: Vozes locais para um mundo melhor, que ocorreu em paralelo ao 5º Congresso do CGLU, no Centro de Convenções Corferias e teve como grande eixo as discussões sobre o Direito à Cidade.

Durante a 5ª Cúpúla, a Bernard van Leer usou duas estratégias para comunicar a importância de maior debate e foco no redesenho urbano às crianças e a proposta da Urban95: o “Painel Primeira Infância: primeiros passos para a Equidade”, com especialistas de reputação internacional que trabalham com infância, e também um workshop prático sobre o Urban95, reunindo 50 pessoas, dentre especialistas, acadêmicos, técnicos de governo, organizações sociais e educacionais e institutos. Estive presente em ambos e pude aprender bastante sobre as grandes tendências mundiais de cuidado à criança. Em breve posto meu relato pessoal de participação no workshop.

Dentre alguns dos nomes de reputação  internacional no workshop estavam o professor inglês Timothy Gil, da Founder Rethinking Childhood, que há 20 anos escreve, faz pesquisa e consultoria sobre a importância do brincar na qualidade de vida de crianças. Gil tem envolvido muitas pessoas para estudar o tema e demonstrou bastante interesse em trazer seus estudos ao Brasil.  Aproveitou a ocasião para entrevistar especialistas para o livro que está preparando sobre a temática de políticas públicas e infância.

Da Espanha, Marta Román, geografa e sócia fundadora da Gea21, é outra especialista bastante destacada, seu foco é o empoderamento de pessoas para que sejam colaboradoras do planejamento urbano. Do Brasil participaram Ana Estela Haddad, com 10 anos de gestão pública e criadora hoje da política de cuidados de atenção integral à criança de maior abrangência no país, a  Política da Infância de SP (São Paulo Carinhosa), Oded Grajew, Coordenador da Rede Nossa São Paulo, Tereza Herling, secretária adjunta de desenvolvimento urbano de São Paulo, e Rodrigo Mindlin Loeb, superintendente do Instituto Brasiliana, de cultura brasileira e estudos sobre infância e desenvolvimento urbano.

Para o grande público e especialistas, transmitido online em um dos canais de livestream do evento , o painel sobre Primeira Infância, realizado na quinta, teve protagonismo de mulheres e platéia lotada. No auditório com capacidade para 700 pessoas, muitas assistiram mesmo no chão e houve fila para os aparelhos de tradução. Participaram a Ellen Frade, diretora de Aprendizagem Infantil da Fundação Bill and Melinda Gates, dos EUA, Maria Cristina Tugillo, Presidente do programa da Primeira Infância de Cero a Ciempre, do governo federal da Colômbia, Dharitri Patnaik, consultora sênior representante da BvLF para a Índia, Ana Estela Haddad, coordenadora do programa de desenvolvimento da infância em São Paulo (São Paulo Carinhosa) , Brasil, e Maria Consuelo Araújo, secretária do Departamento de Integração Social de Bogotá. O CEO da Fundação Maio Santo Domingo Foundation, Juan Carlos Franco, foi o único homem a participar.

O painel iniciou com uma palestra de Ellen, que relembrou estudos que relatam existir pelo menos 200 mil crianças, menores de 5 anos, em todo o mundo, que não desenvolvem todo o seu potencial de aprendizado em decorrência de situações desfavoráveis.  Citou particularmente os estudos a respeito da apreensão de matemática e desenvolvimento de linguagem. De fato, a neurociência já comprovou que baixa nutrição, a falta de referência de um cuidador e violências sofridas na infância afetam a vida de uma criança para toda uma vida. A plateia, formada por muitos educadores e gestores de vários países da América Latina, anotava dados em cadernos e registrava com celulares.

Ellen não relativizou as dificuldades do trabalho de implementar medidas de real impacto à infância. Ela comentou a respeito da  pressão sofrida por parte de gestores públicos e atores de política pública para, no meio do caminho, priorizar os adultos em vez de crianças, mas recomendou que resistissemos. “As crianças precisavam ser o centro da atenção de todas as ações que tomamos. Mas sofremos pressões de todos os lados”, comentou. “Resistí, a causa é importante e precisamos ir mais longe. Precisamos sempre tomar decisões baseadas em estudos, medir impactos, avaliar, implementar e melhorar.” Ela ponderou ainda outros aspectos que influem indiretamente no bem estar infantil. “Uma criança precisa se sentir feliz, estimulada para brincar, estudar, saber que seus pais estão com trabalho, ter uma boa atenção dentária, afinal sabemos que experiências na vida de uma criança muito pequem podem influenciar a construção cerebral para o bem e para o mal.”

A indiana Dhariti Patnaik, da BvLF, contou uma história interessante sobre a criação desta instituição filantrópica e sobre o lançamento da Urban95. Ela contou que o então proprietário da empresa Bernard van Leer, nos anos 50,  era um filantrópo que queria ajudar a reconstruir sua sociedade depois da guerra. Num vôo, Oscar van Leer, então filho deste empresário, se encontrou com um especialista  e perguntou o que seria mais efetivo investir para apoiar a sociedade.  E então o especialista o aconselhou dar suportes a educação infantil e no processo educacional, em formas que pudessem resultar em centros de excelência. A fundação investiu muitos anos nisto e hoje amplia seu foco por meio do Urban. “Hoje, muito tempo depois, sabemos que planejar uma cidade é um processo complexo, exige metodologia e o planejamento de cidades é ainda mais difícil porque ainda existem lugares nos quais não há centros de educação, jardins, parques. Isso nos fez pensar e pedir aos gestores públicos e planejadores que percebam a cidade através da altura de uma criança de 95centímetros, que é mais ou menos isso que ela tem aos três anos. Isso é o centro de tudo o que fazemos. ”

“Se quiser saber mesmo como está uma cidade, precisamos saber o que ela oferece a uma criança”, afirmou Dharitri. “Muitas crianças vivem em assentamentos precários e são invisíveis ao poder público. Ninguém se atreve a ir visitá-los e a informação é difícil de encontrar. Mesmo nos mapas, os programas governamentais não encontram determinadas zonas. ” E ela perguntou em tom de chamada oral: ” quantos de vocês sabem se um programa de política pública é para a criança?”. Ao citar o nome dos países, muitos colombianos e brasileiros levantaram a mão. E seguiram-se aplausos.

Política de SP representando o Brasil

A primeira-dama de São Paulo e coordenadora do programa São Paulo Carinhosa, Ana Estela Haddad, convidada para representar o Brasil, apresentou passos e resultados da criação do São Paulo Carinhosa, programa da capital paulistana lançado em 2013 que reúne 14 secretarias de governo e inspirado no Brasil Carinhoso. Ela narrou brevemente a construção do programa de visita domiciliar infantil criado na cidade que beneficia 63 mil famílias na cidade em 10 regiões mais precárias e apresentou um vídeo do projeto SP95, o primeiro do país a aderir ao conceito do Urban e que está sendo realizado em parceria com a Bernard van Leer  Foundation, cooperação técnica do Instituto Brasiliana, na região central da cidade de São Paulo.

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Rodrigo Mindlin Loeb (Instituto Brasiliana)  e Ana Estela Haddad (primeira-dama e Coordenadora da política de atenção integral à infância de SP (São Paulo Carinhosa): por meio de cooperação técnica criaram o SP95

Por ser a cidade mais populosa da mesa e a única a ter um programa amplo e desenvolvido, houve bastante interesse das participantes do  painel em buscar exemplos no modelo apresentado por Ana Estela Haddad.  Ela chamou a atenção para a importância de o governo ter um referencial para o conceito de cidade que se pretende ter. Comentou que, em São Paulo, o Plano Diretor atual aprovado, bastante ancorado no conceito de Direito à cidade e responsável pela organização do espaço, prevê um desenvolvimento equilibrado da cidade, com a premissa de devolver a cidade para as pessoas. A partir dele, pudemos trabalhar contemplando a preservação de áreas urbanas, estimular a agricultura familiar e orgânica, levando essa alimentação para as escolas.

“Saímos de uma patamar de zero para 27% de compra de alimentação escolar orgânica, adquirida das cooperativas familiares.  Para ela, os pesquisadores haviam encomendado algumas perguntas, sobre a inclusão das crianças e o que deixaria de mensagem ao próximo prefeito de São Paulo. “As crianças devem ser escutadas para que possamos fazer uma boa política”, respondeu. “Eu diria ao próximo prefeito que em cada programa e em cada nova ação pergunte como estas podem ser boas para as crianças.  Se uma política for boa para as crianças, será boa para todo mundo.”

Igualdade de oportunidades
A Urban95 vem sendo desenhada pela BvLF há pelo menos um ano,  a partir da atuação em campo e observação trazida por técnicos, acadêmicos e especialistas e a proposta tem recebido, aos poucos, a contribuição de especialistas.  Na síntese oficial apresentada sobre a Urban95, duas frases da BvLF ratificam as motivações desta escolha. “Durante séculos as cidades têm representado uma oportunidade, Urban95 crê firmemente que a igualdade de oportunidades começa com os cidadãos mais pequenos.” Outro argumento: “Estamos convencidos de que favorecer que todas as crianças tenham um bom bom início na vida não é somente uma questão de justiça, mas também uma forma eficaz de cimentar sociedades mais pacíficas, prósperas e criativas.”
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Irene Quintáns, consultora do Urban95, explica conceitos de cidade de cuidado integral à infância, durante workshop da Bernard van Leer  Leer /Terciane Alves

A arquiteta e urbanista espanhola Irene Quintáns, consultora da Bernard van Leer do Urban95 e que vive no Brasil, explicou durante o workshop as premissas da solução. “Nos centramos nos seguintes aspectos da cidade que consideramos especialmente importantes para as crianças pequenas e para quem cuida delas. A cidade pública; aquela que tenha transformação de seus espaços para que as crianças pequenas brinquem e para que as famílias possam descansar e reunirem-se. A cidade segura, com caminhos seguros para caminhar e ir de bicicleta aos serviços que as famílias usam com frequência e também ofereça um transporte público acessível e adequado para quando o caminhar a pé ou de bike seja possível. ”

Ela também explicou sobre a importância da cidade que cuida, aquela na qual os serviços sociais tenham estratégias de atenção a famílias que sejam acessíveis e de boa qualidade. “Importante a união de serviços e bem estar familiar junto com oportunidades para que os pais aprendam a interagir com filhos de maneira que contribua para o desenvolvimento mental e físico das crianças”, explicou a especialista. O consultor sênior da Fundação Bernard van Leer para a América Latina, Leonardo Yanez, afirmou que é preciso trabalhar contra a perversidade da pobreza, que é limitante, e que a situação das crianças se encontra invisível em grandes cidades. Em breve, entrevista com o  Leonardo Yanez.

Infância é tema agora do 5 Cumbre de Líderes Regionais Locais, em Bogotá

Assista agora:

Bogotá es la Cumbre Canal 5 Live

Governos da América Latina querem saber como São Paulo criou a sua política para a infância na capital. Ana Estela Haddad, aceitou convite da Fundação Bernard van Leer e da prefeitura de Bogotá para apresentar a história de construção e participação social da São Paulo Carinhosa, Política Municipal para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância (Inspirada no Brasil Carinhoso), durante o 5º Seminário de Líderes Locais e Regionais (CGLU), em Bogotá. Neste ano, o Seminário debate o tema “Voces locales para un mundo mejor” e dedica espaço considerável para o tema da criança dentro de vários eixos de debate, como direito à cidade e maior participação social. Na mesa sobre “Primeira Infância: primeiros passos para a Equidade”, transmitido ao vivo agora, representantes do governo federal e municipal da Colômbia dividem o espaço com a primeira-dama de São Paulo e cordenadora de São Paulo. Na plateia, 700 inscritos de vários paises da América Latina. O superintende do Instituto Brasiliana, Rodrigo Mindlin, acompanham ao vivo

Além da urgência: a necessidade de apoiar crianças pequenas que vivem em meio a conflitos

Por Joan Lombardi, Urban95

Um comentário recente publicado pelo The Lancet confirmou a infeliz verdade de que as crianças continuam a carregar desproporcionalmente os fardos físicos e psicológicos de conflitos. A guerra e a violência não somente põem as crianças em perigo físico iminente como também podem causar problemas emocionais sérios que podem persegui-las tempos depois do término do conflito.

Semana passada, a instituição de caridade Theirworld levantou esse ponto em um novo relatório importante, Safe Spaces: The Urgent Need for Early Childhood Development in Emergencies and Disaster (Locais seguros: a necessidade urgente do desenvolvimento da primeira infância em emergências e desastres). O relatório levanta alguns fatos lúcidos:

  • De acordo com a UNHCR, metade dos refugiados do mundo hoje são crianças
  • UNICEF estimou que ao menos 16 milhões de bebês nasceram em cenário de conflito em 2015
  • Frequentemente as crianças continuam em tais circunstâncias estressantes ao longo de seus primeiros anos

Sabemos que crianças muito novas são particularmente vulneráveis ao dito stress contínuo. Além das consequências físicas sérias, as crianças mais novas estão em grande perigo de trauma psicológico que impacta sua saúde imediata e de longo prazo, seu comportamento e seu aprendizado.

Crianças novas vivendo em cenários de emergência – tanto natural quanto feito pelo homem – precisam de mais atenção. Isso é claro pela combinação do comentário no The Lancet, do relatório pela Theirworld e das fotos de crianças sofrendo que infelizmente vemos nos jornais todos os dias. Ainda assim, como relata o relatório, há uma brecha séria na assistência humanitária especificamente focada no desenvolvimento da primeira-infância. Para cutucar essa brecha, o relatório faz uma série de recomendações incluindo:

  • Todos os planos de resposta humanitária deveriam incluir metas para necessidades holísticas de crianças de 0 a 5 anos;
  • “Locais seguros” deveriam ser estabelecidos para mulheres grávidas, mães e cuidadores, e bebês e crianças pequenas (0-5) onde suas necessidades físicas, psicosociais e cognitivas possam ser atendidas
  • O financiamento pelo fundo recentemente lançado, Education Cannot Wait, deveria priorizar o apoio no desenvolvimento da primeira-infância e do pré-primário

Programas de primeira-infância podem ser locais seguros para as crianças pequenas e suas famílias e podem fornecer o oásis que necessitam em meio ao caos.

Enquanto o passo mais importante é que os líderes políticos ajam seriamente para acabar com a guerra e outros termos de violência, as crianças que estão sofrendo não podem esperar por esse dia. Bebês e crianças novas vivendo em crise e violência e seus cuidadores precisam de apoio e investimento muito maiores. É além da urgência.

 

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