Se o alimento é bom para a criança, é bom para todos!

Por Erika Fischer*

O grande valor dos alimentos orgânicos encontra-se exatamente em sua vocação natural de promover saúde , seja para quem produz, seja para quem consome, em contraponto ao modelo indutor de moléstias predominante na agricultura convencional.

E é ponto pacífico que o consumo contínuo de orgânicos precisa ocorrer desde a mais tenra idade e ser estimulado a partir do ambiente escolar, espaço privilegiado para a formação dos hábitos que irão perdurar ao longo da vida.

Esta foi a principal motivação para a criação da Lei 16140/15, que dispõe sobre a inclusão de alimentos orgânicos ou de base agroecológica no âmbito do Sistema Municipal de Educação de São Paulo.

O interessante é que, embora os reais benefícios de uma alimentação orgânica se evidenciem e se acumulem no curso de uma vida, (e sejam pouco visíveis no prazo de uma gestão de governo), alguns resultados socioambientais já estão materializados sob a proteção de uma política pública sólida, que assegura a continuidade dos esforços realizados para a efetividade da lei 16140/15.

Resultados das políticas públicas de alimentação

Em uma visita à região de Parelheiros , conduzida pelos produtores da cooperativa de agricultura orgânica COOPERAPAS, foi possível entender como o modelo de apoio intersecretarial promovido pela prefeitura ao fomento desse modelo de produção vem transformando o panorama regional, contribuindo, acima de tudo, para a conservação dos recursos naturais e para a preservação dos mananciais e garantindo as perspectivas do desenvolvimento rural sustentável naquele território.

 

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Ana Estela visita COOPERAPAS/ Foto: Eduardo Ogata

Comecemos do princípio: para apoiar a organização da cadeia produtiva a partir dos seus primeiros elos, foi criado o Programa Agriculturas Paulistanas, que oferece maquinário agrícola, assistência técnica aos agricultores/as, incluindo parceria com o INCRA para apoio na regularização fundiária, e uma “casa do agricultor” com unidade de armazenamento e distribuição dos produtos da cooperativa.

Graças a esse impulso fundamental, os agricultores alavancaram suas produções e foi possível a consumidores do exigente mercado gastronômico paulistano suprir parte da demanda de seus restaurantes com produtos orgânicos da cooperativa: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2016/07/1796981-paola-carosella-faz-parceria-com-agricultores-que-cultivam-organicos-em-sp.shtml

Além disso, a secretaria do trabalho tem sido parceira na remuneração de bolsas de trabalho (POT) para o Programa Hortas e Viveiros da Comunidade, contratando trabalhadores para a organização produtiva de diversas iniciativas comunitárias. Com apoio dos bolsistas desse programa foi possível alavancar , não muito longe de Parelheiros, o ponto de cultura alimentar da ONG Capão Cidadão, uma iniciativa pioneira, que reúne mulheres em torno da horta para trocas de saberes e produção de receitas culinárias.

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Ana Estela em roda de conversa com mulheres da Horta do ponto de cultura alimentar do Capão Cidadão/ Foto: Eduardo Ogata

 

Feiras e mercados alimentícios à serviço da população

Para dar conta da outra ponta da cadeia produtiva, o desafio da venda dos produtos está sendo enfrentado com o fomento à instalação de novas feiras de alimentos orgânicos e da agricultura familiar. São Paulo tem hoje cerca de 10 feiras especializadas em orgânicos além dos diversos espaços abertos pela iniciativa privada: http://aao.org.br/aao/onde-encontrar-organicos.php

Também foi dado forte impulso à revitalização dos mercados públicos municipais, entrepostos diretos entre o alimento e o consumidor, que andavam meio perdidos em meio a boxes de interesses distintos.

O Novo Mercado Público de Pinheiros, por exemplo, hoje mostra grande potencial pedagógico para a reflexão e a mudança de atitude em relação à produção, ao preparo e ao consumo de alimentos, por meio de espaços temáticos dos biomas brasileiros, que resgatam e preservam as tradições da cultura gastronômica brasileira. O projeto é parceria com instituto ATA.

Essas iniciativas, entre tantas outras consignadas no Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricionalse complementam para garantir que a produção agroecológica no nosso município e o consumo de alimentos saudáveis e seguros seja um processo sem volta, independente dos rumos que as futuras gestões de governo decidam adotar.

Uma conquista das nossas crianças, para toda nossa cidade!

Orgânicos na alimentação escolar das escolas paulistanas: afinal, que diferença isso faz?

A qualidade do Programa de alimentação escolar da cidade de SP vem melhorando de forma manifesta e irreversível. Isso é uma conquista que todos nós devemos celebrar com muito orgulho!

Mesmo diante da responsabilidade imensa de fornecimento de mais de 2 milhões de refeições todos os dias, a cidade de São Paulo, desde 2013 já vinha adotando a opção de privilegiar alimentos in natura em substituição aos alimentos ultra processados e de menor valor nutricional, em sintonia com o preconizado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira.

Os ultra processados, quando presentes no cardápio, frequentemente aparecem com formulações melhoradas. Um exemplo  é a redução de açúcares adicionados,(caso do bolinho do lanche, dos flocos de milho e dos compostos lácteos) ou o aumento na proporção de fibras, como nas barras de cereais.

Mas dentre as iniciativas relacionadas à melhoria da alimentação escolar, merece destaque a Lei Federal 11947/09, que determina que os gestores públicos privilegiem alimentos provenientes da agricultura familiar nas aquisições da alimentação escolar, exatamente porque a agricultura de base familiar é propulsora de um modelo de produção e consumo mais sustentável.

Além de dinamizar os arranjos produtivos locais, as chamadas públicas da agricultura familiar permitiram inovar na composição do cardápio das escolas. Por meio delas foi possível a introdução de alimentos típicos da culinária brasileira, como a farinha de mandioca, a carne suína, o fubá e mesmo a inserção de alimentos orgânicos. E essa experiência ocorreu exatamente com o arroz, item fundamental na alimentação escolar. Somente no período 2013/2015 foram adquiridas 4 mil toneladas de produção orgânica certificada dos tipos parbolizado e branco de arroz.

O alimento orgânico, isento de agrotóxicos, é benéfico à saúde e funciona como indutor de novos comportamentos, porque dissemina valores vinculados com consumo consciente, biodiversidade regional e alimentação sustentável!

Com o objetivo de consolidar definitivamente a estratégia de inserção de alimentos orgânicos nos cardápios escolares, elevando um projeto de governo a uma política de Estado, a cidade de São Paulo tem hoje a Lei Municipal n° 16.140/2015 que obriga a inclusão de alimentos orgânicos ou de base agroecológica na alimentação escolar.

O plano de ação para implementação da Lei da alimentação orgânica na rede municipal de ensino, a ser realizada gradativamente, foi construído de forma compartilhada, envolvendo técnicos da Coordenadoria de Alimentação Escolar, representantes da câmara dos vereadores e de organizações da sociedade civil e ampla consulta pública por meio da plataforma Cidade Aberta.

A alimentação orgânica escolar como tarefa principal

Esse plano de ação inova em várias frentes: estabelece metas progressivas para a aquisição dos alimentos orgânicos ou de base agroecológica; define estratégias para adequar o sistema de compras da agricultura familiar e dos pequenos e médios produtores; estimula a produção de orgânicos em âmbito municipal por meio de arranjos locais junto a agricultores familiares do município; desenvolve programas educativos de implantação de hortas escolares orgânicas e de base agroecológica, em consonância com a Política Municipal de Educação Ambiental e promove capacitações diversas para as equipes da Secretaria Municipal de Educação, para os prestadores de serviços terceirizados de alimentação e para os conselhos municipais de Alimentação Escolar (CAE)e de Segurança Alimentar e Nutricional (COMUSAN).

Tornar obrigatória a presença de alimentos orgânicos em um gigantesco programa de alimentação escolar é tarefa audaciosa e de longo prazo.

Mais ainda quando a legislação articula mecanismos para que o fornecimento desse universo de bons alimentos tenha origem em agricultores da nossa cidade, por tanto tempo esquecidos…

Aproveitamos este dia da alimentação escolar para saudar entusiasticamente a conquista e fazer votos de que essa lei não só atenda, mas ultrapasse todas as expectativas de suas metas.

*O lema “comida de verdade, no campo e na cidade” nomeou a última conferencia nacional de segurança alimentar e nutricional, em nov/15.

 

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Filmes inspiradores que mostram a importância da alimentação orgânica:

 O Veneno está na mesa (I): Documentário dirigido por Silvio Tendler

O filme faz parte de um conjunto de materiais elaborados para a construção da Campanha permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
O Brasil é o país do mundo que mais consome agrotóxicos: 5,2 litros/ano por habitante. Muitos desses herbicidas, fungicidas e pesticidas que consumimos estão proibidos em quase todo mundo pelo risco que representam à saúde pública.

O Veneno está na mesa (II): Documentário dirigido por Silvio Tendler

O Veneno Está Na Mesa 2 atualiza e avança na abordagem do modelo agrícola nacional atual e de suas consequências para a saúde pública. O filme apresenta experiências agroecológicas empreendidas em todo o Brasil, mostrando a existência de alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis, que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores. 

Brasil Orgânico: Documentário dirigido por Kátia Klock e Lícia Brancher

Sobre a cadeia de alimentos orgânicos,  do produtor ao consumidor, em diferentes biomas brasileiros.

 

*Erika Fischer é integrante do programa São Paulo Carinhosa e ex-diretora do Departamento de Alimento Escolar (DAE) do município de São Paulo

Foto destacada: secretaria municipal de Educação de SP

Campanha Humara Bachpan mobiliza crianças nas favelas urbanas da Índia

Veja o vídeo:

Com uma população de 1.25 bilhões, a Índia é o segundo país mais populoso do mundo.

Até 2030, cerca de 50% da população total é esperada para habitar nas áreas urbanas.

O ritmo da migração das áreas rurais para as urbanas está aumentando, levando ao aumento do número de favelas. Diretamente atingindo as 7.6 milhões de crianças que moram nas áreas urbanas pobres. Prejudicando seu desenvolvimento físico e mental.

As crianças são consideradas o futuro da nação, mas suas vontades não são vistas, suas necessidades não são percebidas e suas aspirações não são escutadas.

Percebendo que o ambiente físico e a vizinhança são fatores chave no desenvolvimento das habilidades sociais, cognitivas e físicas das crianças, a Campanha Humara Bachpan iniciou um processo único de planejamento urbano chamado Child Led Planning (Planejamento Feito Pelas Crianças). Que tem como objetivo entender e analisar problemas para encontrar soluções. O projeto envolve 10 passos:

  • Construção de capacidade (treinamento dos cuidadores)
  • Coleta de dados (histórico das favelas)
  • Campanha de construção do meio-ambiente (fortalecendo a relação das crianças e da comunidade)
  • Análise de situação
  • Análise de problema
  • Análise de solução
  • Mapeamento de sonhos (a vizinhança dos sonhos)
  • Mapeamento das partes interessadas
  • Treinamento de liderança e apresentação
  • Operacionalização do CLP

 

Defendendo ambientes seguros e saudáveis para as crianças que moram em zona urbanas pobres, Humara Bachpan, uma campanha nacional com apoio da Fundação Bernard van Leer, trabalha com quase 35.000 crianças em 23 cidades da Índia.

 

Entrevista com Leonardo Yanez: “A pobreza é uma das piores formas de violência à criança, é limitante. É preciso olhar os problemas da primeira infância que estão invisíveis, onde as políticas públicas não vão ou chegam com dificuldade”

De Bogotá, no blog Nossa Infância, Estadão

Durante a abertura de um dos dias do workshop Desenhando Cidades para o Desenvolvimento Infantil, de 12 a 14, em Bogotá, o consultor sênior representante da América Latina para a Fundação Bernard van Leer fez o seguinte alerta: “A maioria das crianças nas grandes cidades da América Latina está crescendo em meios urbanos sem capacidades para o seu desenvolvimento integral”. Yanez destacou que a Fundação acumula bastante conhecimento sobre educação e modelos curriculares mas que é preciso ir além e ampliar a escala de políticas públicas e de ações sociais efetivas para o desenvolvimento integral da infância, não somente de ações bonitas.”Contamos com métodos de qualidade para orientar pais e mães, cuidadores e mestres sobre as melhores formas de cuidar de uma criança desde o seu nascimento e até sua incorporação no sistema educativo formal, mas ainda neste campo há um grande desafio. Como ampliar a cobertura dos programas para chegar aqueles que mais  necessitam, sem sacrificar a qualidade dos serviços? “, questiona Yanez, nesta entrevista. Com 40 anos de trabalho somente com a primeira infância, a conversa com ele é sempre generosa e didática. E ele lança uma preocupação. Mesmo após muitos avanços nas políticas que reduziram a mortalidade infantil no mundo, há ainda muito trabalho para construir uma base de desenvolvimento integral saudável, como a redução da violência na vida das crianças, a redução da morbilidade infantil, uma melhor saúde, redução de acidentes.

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Barreirinhas, Amazonas, local onde a Fundação apóia um programa de visitas de agentes comunitários de apoio à infância

“A pobreza é uma das piores formas de violência porque ela é limitante. A falta de algo fundamental é uma violência”, afirmou. No entanto, ele disse que ainda é cedo para ter resposta prontas para todas as ações de intervenção na cidade. “É preciso aprender mais sobre como as cidades podem se tornar mais favoráveis ao desenvolvimento infantil”.

Com formação em psicologia, Yanez foi o diretor geral de coordenação do Programa Social do Ministério da Família e do Desenvolvimento Social (1993-1994) e Diretor Nacional da Educação Preescolar do Ministério da Educação, na Venezuela (1994-1999). Também foi responsável por integrar o escalonamento de programas da educação infantil e creche naquele país. Atuou como consultor independente da UNICEF, da Organização para os Estados da América (OEA), do Instituto Nacional de Planejamento da Venezuela e vários institutos autônomos. Ele iniciou seus trabalhos na holandesa Fundação Bernard van Leer no ano 2000, como Coordenador de Effectiveness Iniciative. Desde 2003, é especialista de programas e sênior da mesma organização holandesa, em Haia. Nos últimos 10 anos tem visitado o Brasil constantemente e conhece várias lideranças.

Acompanhou e estimulou a criação da Rede Nacional da Primeira Infância, a formação da Política da Primeira Infância na Cidade de São Paulo (São Paulo Carinhosa) e a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância. Na entrevista abaixo, concedida com exclusividade ao Nossa Infância, Yanez comenta os desafios e a importância trazidos pela prioridade à infância, com ênfase na vida nas grandes cidades.

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Leonardo Yanez ministra worshop “Desenhando Cidades para o Desenvolvimento Infantil e Saudável”: técnica inclui as experiências dos participantes

Nossa Infância – O senhor trabalha em uma das mais antigas fundações que investem no desenvolvimento infantil, com sede na Europa, a Bernard van Leer Foundation. Quais focos de trabalho que, em particular, caracterizam o modelo de atuação desta instituição em relação a de outras organizações mundialmente conhecidas por investir nas crianças?

Leonardo Yanez – A Fundação investe exclusivamente na primeira infância e a maioria das outras fundações têm alcance mais amplos a outros segmentos da população. O foco dos investimentos são iniciativas que podem converter-se em política pública e abarcar grandes massas da população, com soluções que podem ganhar maior escala. Outro ponto importante é que a Fundação não opera diretamente seus projetos. Atua associada com as organizações locais.

NI – Em  2015, estive em uma reunião em Haia, na sede da Fundação, quando foi discutido modelos de gestão e de investimentos para os próximos anos. O senhor poderia comentar no que isso resultou?.

LY – Basicamente, temos hoje, após muito tempo de investimento, três soluções de gestão: Parent +, de projetos de fortalecimento às famílias, o Urban95, que procura melhorar a cidade para as crianças e o Building Blocks for Scaling, que fomenta associações locais.

NI – Nesse contexto, quais são os desafios para melhorar a vida das crianças nas cidades?

LY – A maioria das crianças nas grandes cidades da América Latina está crescendo em meios urbanos sem capacidades para o seu desenvolvimento integral. A pobreza é uma das piores formas de violência à criança, é limitante. É preciso olhar os problemas da primeira infância que estão invisíveis, onde as políticas públicas não vão ou chegam com dificuldade. Mesmo após muitos avanços nas políticas que reduziram a mortalidade infantil no mundo, ela existe em vários países, há ainda muito trabalho para construir uma base de desenvolvimento integral saudável, como a redução da violência na vida das crianças, a redução da morbilidade infantil, uma melhor saúde, redução de acidentes.

NI – Como funciona na prática o Parent +, temos exemplos no Brasil?

LY – A  Solução Parent+ consiste em identificar plataformas existentes em serviços públicos ou privados, aos quais se possam agregar-se um componente de orientação às famílias com crianças menores de três anos (desde a gestação). Por exemplo, serviços de visita domiciliar que unam serviços de saúde, treinamento em paternidade e maternidade a jovens pais em cursos vocacionais, e etc. No Acre e Amazonas, em uma aliança com United Way, Ministério de Saúde, governos estaduais e municipais e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, estamos apoiando o processo de escalonamento de um programa de visita às casas, feito por agentes comunitários de saúde treinados para assistir às famílias com crianças pequenas.

NI – O Urban 95 dialoga com o futuro das grandes cidades ?

LY – Sabemos que o ambiente físico onde crescem as crianças pequenas determina em grande medida seu desenvolvimento integral. O Urban95 parte do princípio de que grandes cidades que se planejam para responder às necessidades das crianças pequenas e mulheres gestantes serão apropriadas para todos os cidadãos.

NI – Existe um contexto específico que motivou a criação do Urban95 principalmente para a América Latina ou basicamente os desafios impostos pela urbanização?

LY – Na América Latina, temos avançado muito nos desenhos curriculares da educação infantil na primeira infância. Contamos com métodos de qualidade para orientar a pais e mães, cuidadores e mestres sobre as melhores formas de cuidar de uma criança desde o seu nascimento e até sua incorporação no sistema educativo formal. Neste campo há um grande desafio. Como ampliar a cobertura dos programas para chegar àqueles que mais  necessitam sem sacrificar a qualidade dos serviços?

Indubitavelmente, a BvLF pode contribuir com este conhecimento se aprendermos mais sobre como levar um programa de primeira infância a uma maior escala mantendo sua qualidade.  Convênios com governos, gestores sociais e científicos estão nos ajudando a aprofundar nesta matéria através de ações diretas no terreno da legislação que possibilita assegurar pressupostos ao setor público.

Por outro lado, há mais de 40 anos de ensaios e projetos em associação, centenas de organizações e contrapartidas de organizações, contrapartidas em mais de 50 países do mundo nos tem deixado também outras lições: o desenvolvimento integral de uma criança não pode ser garantido somente com um bom serviço de cuidado e acesso a um bom currículo educacional.  A criança vive em um mundo complexo, que inclui suas relações imediatas com o ambiente físico e com o entorno social que estimula ou limita as capacidades de exploração, sua seguridade social, pessoal e suas destrezas para se relacionar positivamente com outras crianças ou adultos. Ainda os desafios dos programas de desenvolvimento infantil seguem sendo muitos, a fundação é consciente de nossas numerosas organizações nacionais e internacionais chamadas para respostas a essas necessidades. Baseadas nesta nova conjuntura, decidimos explorar novos desafios da infância que não têm sido suficientemente investigados e que requerem atenção pela magnitude de seu impacto no desenvolvimento infantil.

NI – Quais são os próximos passos do Urban95 na América Latina?

LY: Neste momento, estamos consolidando uma metodologia de mapeamento de quatro cidades na América Latina conforme os parâmetros da cidade que cuida, proposta por Marta Román e definida para a Fundação por Irene Quintáns: a cidade que cuida, que é uma cidade que cuida, é segura (no sentido de que as famílias tenham possibilidade de caminhar e usar transportes com segurança, e a cidade que é pública. Iniciamos projetos de organizações e movimentos cidadãos que foram capazes de fazer propostas urbanas e servir de interlocutores  válidos para coordenar a execução  de planos municipais  que afetam as famílias mais vulneráveis.  Finalmente, aspiramos cooperar com os governos municipais destas cidades para criar sinergia entre governos e comunidades na busca de soluções viáveis, efetivas e escaláveis, que garantam um começo justo na vida de uma criança.

NI – E a terceira solução da BvLF fala de aumentar a escala do que dá certo. É isso, não?

LY – Building Blocks for Scaling entende que é necessário construir alianças entre diversos setores de uma sociedade para dar respostas oportunas às necessidades de desenvolvimento da primeira infância. Junto ao Diálogo Interamericano e ao Banco de Desenvolvimento Interamericano, levamos adiante uma campanha para promover a avaliação de programas de primeira infância como primeiro passo para consolidar políticas públicas.

NI – Do que vive hoje a Fundação e o que os investidores da Fundação cobram em resultados de vocês?

LY – Foi construído um endowment (fundo de doação) com  a venda das empresas Van Leer, propriedade da Fundação nos anos de 1990.  A Fundação não tem investidores. É governada por meio de um corpo denominado Board of Trustees.(Conselho de Curadores).

NI – A neurociência comprova que, em nenhuma outra fase da vida, o desenvolvimento cognitivo se dá como dos zero aos três anos de idade, como estimular mais recursos na pauta da infância?

LY – Os primeiros anos da vida são muito importantes para o desenvolvimento humano. Durante esta fase se consolidam funções básicas do cérebro que deixaram um impacto em desenvolvimento ulterior. Os estudos da neurociência têm mostrado uma acelerada atividade neural que não se repete no resto da vida. No entanto, o desenvolvimento continua mais além destes anos, mediantes outras estratégias de reestruturação do cérebro. Por isso é importante que os fundos que invistam na primeira infância não sejam sobras de fundos dedicados a crianças maiores e adolescentes.

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Leonardo Yanez: “estamos buscando aprender mais sobre como as cidades poderão tornar-se mais favoráveis para o desenvolvimento infantil”

NI – Como são as parcerias da Fundação no Brasil? Com que cidades vocês atuam no momento?

LY – No momento estamos prevendo cooperação com duas cidades, São Paulo e Recife. Há pouco tempo começamos a apoiar estudos para conhecer o estado da técnica quanto às necessidades das famílias com menores de três anos e gestantes em situação de vulnerabilidade. Por meio de uma consulta a ser realizada em Bogotá, poderemos vislumbrar ações a seguir para que estas cidades possam adaptar seus programas e políticas às necessidades desta população.

NI – No caso do SP95, com São Paulo, o enfoque é uma região de Cortiços, podemos compreender que os desafios habitacionais são um dos principais eixos e a ocupação do espaço na cidade também?

LY – Em efeito, entre os elementos que vemos necessário abordar na América Latina, temos priorizado:  a) a necessidade de garantir o acesso a soluções de cuidado diário infantil de qualidade e adequados às necessidades de toda a família; b) a importância do acesso e a ocupação segura dos espaços públicos de recreação e encontro para essas famílias, e a proximidade com suas casas; c) a participação das comunidades no desenho ou reabilitação dos espaços públicos; e d) a qualidade da casa e sua adequação mínima para o desenvolvimento integral das crianças. O caso dos cortiços e de outros tipos de moradias precárias e informais nas grandes cidades são um desafio para o desenvolvimento infantil sadio. Sobre o tema da moradia, no entanto, esse foi eliminado do tema global do Urban95, a seleção de projetos nesse campo na América do Sul se realizou quando ainda estava listado. Creio que no caso das crianças em moradias precárias de São Paulo, o tema é vigente e afeta mais de 100 mil crianças no centro da cidade. A solução para o problema pode estar mais vinculado aos espaços públicos em seu entorno, a municipalidade de São Paulo levou adiante algumas iniciativas para melhoras as condições de habitação.

NI – Há quanto tempo o senhor trabalha com investimento na primeira infância e o que mudou de lá para cá em prioridade para o mundo?

LY – Tenho mais de quarentas anos dedicados a primeira infância em comunidades vulneráveis. Creio  que os grandes marcos foram a Convenção do Direitos das Crianças, os descobrimentos da neurociência sobre a importância dos primeiros anos e os estudos econômicos iniciados por Heckman (Nobel) que mostram a prioridade desta no desenvolvimento humano.

NI – Novos marcos legais de cuidados à infância têm avançado em todo o mundo. Por que mesmo com tantos avanços, nem sempre estes serviços de qualidade chegam às crianças?

LY – Eu acho que ainda muitos líderes do mundo não compreendem a importância da primeira infância. Ainda há muito a aprender sobre como passar informação às lideranças e a outros setores da sociedade que também têm um papel importante para o benefício das crianças. Até agora, os investimentos na infância ainda são muito pequenos.  Na minha opinião, um foco na família poderia ser a resposta econômica mais responsável.

NI – Nos materiais de difusão de conhecimento e informações da Bernard van Leer Foundation, há muitas boas práticas disseminadas de cuidados à infância. E o que fazer com elas?

LY – É preciso dar escalonamento dessas experiências sem perder a qualidade. Eles são o nosso foco.

NI – E quais são os desafios para ampliar essa escala de atendimento sem sacrificar a qualidade?

LY – Bom, primeiro precisamos trabalhar bem as fontes de financiamento. E isso se faz com umcurrículo pertinente que inclua os padrões de conteúdos nacionais mínimos necessários e que permita certa autonomia para sua adequação aos diversos contextos do país. Depois vem a fase da avaliação das intervenções, construção de um sistema eficiente de seguimento para detectar a perda de qualidade e iniciar as correções. É necessário ter um modelo de gestão que multiplique os  operadores do programa em nível local e que exija patamares mínimos de qualidade e custo. Ainda é importante um bom sistema de formação, incentivos e seguimento em serviço para pessoal necessário para colocar em marcha essa grande escala. Uma consulta política (com possibilidades de acordos público-privados onde seja necessário) para garantir a continuidade do programa mesmo na transição de ciclos eleitorais e mudanças de governo.

NI –  Até 2050, acredita-se, 66% da população mundial irá viver nas grandes cidades.

LY – É por isso, estamos buscando aprender mais sobre como estas cidades poderão tornar-se mais favoráveis para o desenvolvimento infantil e estamos buscando aprender mais sobre como estas cidades podem seguir um rumo favorável para as crianças.

NI – O senhor acha que o Brasil tem algo a ensinar para o mundo sobre primeira infância?

LY – O Brasil tem tido  grandes iniciativas que poderiam ser emuladas por outros países do mundo. Vários programas de visita domiciliar têm sido reconhecidos por seus resultados em diversos estados do pais.  igualmente posso dizer sobre o Brasil Carinhoso e sua contrapartida de investimento em estados e municípios.  A nova lei do Marco Legal da Primeira Infância também pode ser usada como exemplo. O desafio é ser colocada em prática.

NI – Quais são os planos da Fundação para o Brasil nos próximos anos?

Queremos oferecer apoio técnico para a massificação dos serviços de apoio da família com crianças menores de três anos vinculadas aos serviços de saúde e ao programa Bolsa Família, por um lado. Por outro, queremos mostrar as bondades de uma cidade para as crianças pequenas e que tais práticas podem ser copiadas por outras cidades no país e na região.

Veja também: Em Bogotá, Fundação Bernard van Leer apresenta Urban95 à América Latina: uma solução para redesenhar cidades mais saudáveis às crianças

Programa desafios Impaes: inscrições prorrogadas até 21 de outubro

via CENPEC – Educação, Cultura e Ação Comunitária

As inscrições para o Edital 2017/2018 do Programa Desafios Impaes foram prorrogadas até 21 de outubro no site: www.impaes.org.br. Podem participar OSCs (Organizações da Sociedade Civil), localizadas na cidade de São Paulo e/ou municípios limítrofes, que desenvolvem projetos de formação híbrida (presencial e à distância) em arte educação para professores e coordenadores pedagógicos em Centros de Educação Infantil públicos, com crianças de 0 a 3 anos e 11 meses de idade, em territórios de alta vulnerabilidade social.  As instituições selecionadas receberão, por dois anos, apoio financeiro de R$ 90 mil/ano e acompanhamento técnico.

O Programa Desafios Impaes é uma iniciativa do Impaes (Instituto Minidi Pedroso de Arte e Educação Social), com coordenação técnica do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária). Seu objetivo é difundir o potencial da arte como meio transformador do indivíduo e de sua realidade; estimular a formação e o desenvolvimento humano a partir da ampliação das capacidades criativa, crítica e de inserção social; fomentar propostas de experiências estéticas e explorações plásticas e visuais com crianças de 0 a 3 anos e colaborar para a construção de ambientes de aprendizagem nos CEIs (Centros de Educação Infantil).

“Os projetos selecionados além de contarem com o acompanhamento técnico do Cenpec, terão a oportunidade de participar de uma rede de organizações dedicadas a pensar as relações da arte na Educação Infantil”, afirma Fernanda Kivitz, técnica do Cenpec responsável pelo programa.

Os projetos inscritos devem ser desenvolvidos por OSCs legalmente constituídas, sem fins lucrativos, que serão apoiadas por um período de 24 (vinte e quatro) meses, respeitando-se o ano-calendário (janeiro a dezembro). Os recursos financeiros solicitados não devem ultrapassar o valor de R$90 mil por ano de execução, totalizando até R$180 mil para os dois anos de parceria com o Impaes. A divulgação das OSCs selecionadas está prevista para o dia 5 de dezembro.

Podem se inscrever instituições e projetos localizados na cidade de São Paulo e/ou municípios limítrofes, a saber: Caieiras, Cajamar, Cotia, Diadema, Embu, Embu Guaçu, Ferraz de Vasconcelos, Guarulhos, Itanhaém, Itapecerica da Serra, Itaquaquecetuba, Juquitiba, Mairiporã, Mauá, Mongaguá, Osasco, Poá, Santana de Parnaíba, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São Vicente e Taboão da Serra.

Confira os detalhes do processo seletivo no Edital Programa Desafios Impaes 2017/2018.

 

Foto: Associação Sabiá

Em Bogotá, Fundação Bernard van Leer apresenta Urban95 à América Latina: uma solução para redesenhar cidades mais saudáveis às crianças

Solução Urban95, da organização holandesa, se propõe a estimular o desenho de cidades para o desenvolvimento saudável das crianças pequenas. São Paulo foi uma das primeiras capitais da  AL a aderir, com a criação do programa SP95 

De Bogotá no blog Nossa Infância, Estadão
A Fundação Bernard van Leer (BvLF, da sigla em inglês), organização holandesa com 60 anos de apoio exclusivo a projetos e programas para melhorar a vida das crianças em mais de 50 países, aproveitou a 5ª Cúpula de Líderes Regionais Locais de Cidades, iniciativa do CGLU ( Governos Locais Unidos) , que ocorreu na última semana, em Bogotá (Colômbia), para apresentar a solução Urban95, um convite a líderes de países, municípios e urbanistas para a importância de desenhar cidades mais aptas ao desenvolvimento saudável das crianças.

Aproveitando a quinta edição da cúpula do CGLU, até hoje a primeira a anteceder e servir de preparatória para o HabitatIII, a Conferência Mundial da ONU em Desenvolvimento Sustentável, que só ocorre a cada 20 anos e teve início nesta segunda-feira, em Quito, a BvLF apresentou as linhas gerais de trabalho propostas pela solução Urban95 às lideranças de governo e integrantes de organizações e institutos de suporte ao desenvolvimento social da América Latina. A temática da infância dialoga com o tema da Cúpula: Vozes locais para um mundo melhor, que ocorreu em paralelo ao 5º Congresso do CGLU, no Centro de Convenções Corferias e teve como grande eixo as discussões sobre o Direito à Cidade.

Durante a 5ª Cúpúla, a Bernard van Leer usou duas estratégias para comunicar a importância de maior debate e foco no redesenho urbano às crianças e a proposta da Urban95: o “Painel Primeira Infância: primeiros passos para a Equidade”, com especialistas de reputação internacional que trabalham com infância, e também um workshop prático sobre o Urban95, reunindo 50 pessoas, dentre especialistas, acadêmicos, técnicos de governo, organizações sociais e educacionais e institutos. Estive presente em ambos e pude aprender bastante sobre as grandes tendências mundiais de cuidado à criança. Em breve posto meu relato pessoal de participação no workshop.

Dentre alguns dos nomes de reputação  internacional no workshop estavam o professor inglês Timothy Gil, da Founder Rethinking Childhood, que há 20 anos escreve, faz pesquisa e consultoria sobre a importância do brincar na qualidade de vida de crianças. Gil tem envolvido muitas pessoas para estudar o tema e demonstrou bastante interesse em trazer seus estudos ao Brasil.  Aproveitou a ocasião para entrevistar especialistas para o livro que está preparando sobre a temática de políticas públicas e infância.

Da Espanha, Marta Román, geografa e sócia fundadora da Gea21, é outra especialista bastante destacada, seu foco é o empoderamento de pessoas para que sejam colaboradoras do planejamento urbano. Do Brasil participaram Ana Estela Haddad, com 10 anos de gestão pública e criadora hoje da política de cuidados de atenção integral à criança de maior abrangência no país, a  Política da Infância de SP (São Paulo Carinhosa), Oded Grajew, Coordenador da Rede Nossa São Paulo, Tereza Herling, secretária adjunta de desenvolvimento urbano de São Paulo, e Rodrigo Mindlin Loeb, superintendente do Instituto Brasiliana, de cultura brasileira e estudos sobre infância e desenvolvimento urbano.

Para o grande público e especialistas, transmitido online em um dos canais de livestream do evento , o painel sobre Primeira Infância, realizado na quinta, teve protagonismo de mulheres e platéia lotada. No auditório com capacidade para 700 pessoas, muitas assistiram mesmo no chão e houve fila para os aparelhos de tradução. Participaram a Ellen Frade, diretora de Aprendizagem Infantil da Fundação Bill and Melinda Gates, dos EUA, Maria Cristina Tugillo, Presidente do programa da Primeira Infância de Cero a Ciempre, do governo federal da Colômbia, Dharitri Patnaik, consultora sênior representante da BvLF para a Índia, Ana Estela Haddad, coordenadora do programa de desenvolvimento da infância em São Paulo (São Paulo Carinhosa) , Brasil, e Maria Consuelo Araújo, secretária do Departamento de Integração Social de Bogotá. O CEO da Fundação Maio Santo Domingo Foundation, Juan Carlos Franco, foi o único homem a participar.

O painel iniciou com uma palestra de Ellen, que relembrou estudos que relatam existir pelo menos 200 mil crianças, menores de 5 anos, em todo o mundo, que não desenvolvem todo o seu potencial de aprendizado em decorrência de situações desfavoráveis.  Citou particularmente os estudos a respeito da apreensão de matemática e desenvolvimento de linguagem. De fato, a neurociência já comprovou que baixa nutrição, a falta de referência de um cuidador e violências sofridas na infância afetam a vida de uma criança para toda uma vida. A plateia, formada por muitos educadores e gestores de vários países da América Latina, anotava dados em cadernos e registrava com celulares.

Ellen não relativizou as dificuldades do trabalho de implementar medidas de real impacto à infância. Ela comentou a respeito da  pressão sofrida por parte de gestores públicos e atores de política pública para, no meio do caminho, priorizar os adultos em vez de crianças, mas recomendou que resistissemos. “As crianças precisavam ser o centro da atenção de todas as ações que tomamos. Mas sofremos pressões de todos os lados”, comentou. “Resistí, a causa é importante e precisamos ir mais longe. Precisamos sempre tomar decisões baseadas em estudos, medir impactos, avaliar, implementar e melhorar.” Ela ponderou ainda outros aspectos que influem indiretamente no bem estar infantil. “Uma criança precisa se sentir feliz, estimulada para brincar, estudar, saber que seus pais estão com trabalho, ter uma boa atenção dentária, afinal sabemos que experiências na vida de uma criança muito pequem podem influenciar a construção cerebral para o bem e para o mal.”

A indiana Dhariti Patnaik, da BvLF, contou uma história interessante sobre a criação desta instituição filantrópica e sobre o lançamento da Urban95. Ela contou que o então proprietário da empresa Bernard van Leer, nos anos 50,  era um filantrópo que queria ajudar a reconstruir sua sociedade depois da guerra. Num vôo, Oscar van Leer, então filho deste empresário, se encontrou com um especialista  e perguntou o que seria mais efetivo investir para apoiar a sociedade.  E então o especialista o aconselhou dar suportes a educação infantil e no processo educacional, em formas que pudessem resultar em centros de excelência. A fundação investiu muitos anos nisto e hoje amplia seu foco por meio do Urban. “Hoje, muito tempo depois, sabemos que planejar uma cidade é um processo complexo, exige metodologia e o planejamento de cidades é ainda mais difícil porque ainda existem lugares nos quais não há centros de educação, jardins, parques. Isso nos fez pensar e pedir aos gestores públicos e planejadores que percebam a cidade através da altura de uma criança de 95centímetros, que é mais ou menos isso que ela tem aos três anos. Isso é o centro de tudo o que fazemos. ”

“Se quiser saber mesmo como está uma cidade, precisamos saber o que ela oferece a uma criança”, afirmou Dharitri. “Muitas crianças vivem em assentamentos precários e são invisíveis ao poder público. Ninguém se atreve a ir visitá-los e a informação é difícil de encontrar. Mesmo nos mapas, os programas governamentais não encontram determinadas zonas. ” E ela perguntou em tom de chamada oral: ” quantos de vocês sabem se um programa de política pública é para a criança?”. Ao citar o nome dos países, muitos colombianos e brasileiros levantaram a mão. E seguiram-se aplausos.

Política de SP representando o Brasil

A primeira-dama de São Paulo e coordenadora do programa São Paulo Carinhosa, Ana Estela Haddad, convidada para representar o Brasil, apresentou passos e resultados da criação do São Paulo Carinhosa, programa da capital paulistana lançado em 2013 que reúne 14 secretarias de governo e inspirado no Brasil Carinhoso. Ela narrou brevemente a construção do programa de visita domiciliar infantil criado na cidade que beneficia 63 mil famílias na cidade em 10 regiões mais precárias e apresentou um vídeo do projeto SP95, o primeiro do país a aderir ao conceito do Urban e que está sendo realizado em parceria com a Bernard van Leer  Foundation, cooperação técnica do Instituto Brasiliana, na região central da cidade de São Paulo.

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Rodrigo Mindlin Loeb (Instituto Brasiliana)  e Ana Estela Haddad (primeira-dama e Coordenadora da política de atenção integral à infância de SP (São Paulo Carinhosa): por meio de cooperação técnica criaram o SP95

Por ser a cidade mais populosa da mesa e a única a ter um programa amplo e desenvolvido, houve bastante interesse das participantes do  painel em buscar exemplos no modelo apresentado por Ana Estela Haddad.  Ela chamou a atenção para a importância de o governo ter um referencial para o conceito de cidade que se pretende ter. Comentou que, em São Paulo, o Plano Diretor atual aprovado, bastante ancorado no conceito de Direito à cidade e responsável pela organização do espaço, prevê um desenvolvimento equilibrado da cidade, com a premissa de devolver a cidade para as pessoas. A partir dele, pudemos trabalhar contemplando a preservação de áreas urbanas, estimular a agricultura familiar e orgânica, levando essa alimentação para as escolas.

“Saímos de uma patamar de zero para 27% de compra de alimentação escolar orgânica, adquirida das cooperativas familiares.  Para ela, os pesquisadores haviam encomendado algumas perguntas, sobre a inclusão das crianças e o que deixaria de mensagem ao próximo prefeito de São Paulo. “As crianças devem ser escutadas para que possamos fazer uma boa política”, respondeu. “Eu diria ao próximo prefeito que em cada programa e em cada nova ação pergunte como estas podem ser boas para as crianças.  Se uma política for boa para as crianças, será boa para todo mundo.”

Igualdade de oportunidades
A Urban95 vem sendo desenhada pela BvLF há pelo menos um ano,  a partir da atuação em campo e observação trazida por técnicos, acadêmicos e especialistas e a proposta tem recebido, aos poucos, a contribuição de especialistas.  Na síntese oficial apresentada sobre a Urban95, duas frases da BvLF ratificam as motivações desta escolha. “Durante séculos as cidades têm representado uma oportunidade, Urban95 crê firmemente que a igualdade de oportunidades começa com os cidadãos mais pequenos.” Outro argumento: “Estamos convencidos de que favorecer que todas as crianças tenham um bom bom início na vida não é somente uma questão de justiça, mas também uma forma eficaz de cimentar sociedades mais pacíficas, prósperas e criativas.”
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Irene Quintáns, consultora do Urban95, explica conceitos de cidade de cuidado integral à infância, durante workshop da Bernard van Leer  Leer /Terciane Alves

A arquiteta e urbanista espanhola Irene Quintáns, consultora da Bernard van Leer do Urban95 e que vive no Brasil, explicou durante o workshop as premissas da solução. “Nos centramos nos seguintes aspectos da cidade que consideramos especialmente importantes para as crianças pequenas e para quem cuida delas. A cidade pública; aquela que tenha transformação de seus espaços para que as crianças pequenas brinquem e para que as famílias possam descansar e reunirem-se. A cidade segura, com caminhos seguros para caminhar e ir de bicicleta aos serviços que as famílias usam com frequência e também ofereça um transporte público acessível e adequado para quando o caminhar a pé ou de bike seja possível. ”

Ela também explicou sobre a importância da cidade que cuida, aquela na qual os serviços sociais tenham estratégias de atenção a famílias que sejam acessíveis e de boa qualidade. “Importante a união de serviços e bem estar familiar junto com oportunidades para que os pais aprendam a interagir com filhos de maneira que contribua para o desenvolvimento mental e físico das crianças”, explicou a especialista. O consultor sênior da Fundação Bernard van Leer para a América Latina, Leonardo Yanez, afirmou que é preciso trabalhar contra a perversidade da pobreza, que é limitante, e que a situação das crianças se encontra invisível em grandes cidades. Em breve, entrevista com o  Leonardo Yanez.

Infância é tema agora do 5 Cumbre de Líderes Regionais Locais, em Bogotá

Assista agora:

Bogotá es la Cumbre Canal 5 Live

Governos da América Latina querem saber como São Paulo criou a sua política para a infância na capital. Ana Estela Haddad, aceitou convite da Fundação Bernard van Leer e da prefeitura de Bogotá para apresentar a história de construção e participação social da São Paulo Carinhosa, Política Municipal para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância (Inspirada no Brasil Carinhoso), durante o 5º Seminário de Líderes Locais e Regionais (CGLU), em Bogotá. Neste ano, o Seminário debate o tema “Voces locales para un mundo mejor” e dedica espaço considerável para o tema da criança dentro de vários eixos de debate, como direito à cidade e maior participação social. Na mesa sobre “Primeira Infância: primeiros passos para a Equidade”, transmitido ao vivo agora, representantes do governo federal e municipal da Colômbia dividem o espaço com a primeira-dama de São Paulo e cordenadora de São Paulo. Na plateia, 700 inscritos de vários paises da América Latina. O superintende do Instituto Brasiliana, Rodrigo Mindlin, acompanham ao vivo

Integração com Bolsa Família contribuiu com expansão da rede pública de assistência social, aponta estudo

Criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome em 2004 integrou políticas de transferência de renda e assistência social e ajudou a aumentar o atendimento à população

Julio Bernardes, Jornal da USP

A integração da transferência de renda (Programa Bolsa Família) e da assistência social a partir da criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em 2004, contribuiu para a expansão da rede pública de equipamentos de assistência. A conclusão faz parte do artigo Novas agendas, novos desafios: Reflexões sobre as relações entre transferência de renda e assistência social no Brasil, elaborado a partir da pesquisa da professora Renata Bichir, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, no Centro de Estudos da Metrópole (CEM). O risco de “utilização seletiva” dos benefícios e serviços, sem uma diretriz clara de proteção social, foi reduzido com as medidas de integração, mas não há segurança de que essas iniciativas serão mantidas.

Um dos principais serviços da assistência social, no nível da proteção básica, é o Programa de Atenção Integral às Famílias, desenvolvido nos Centros de Referência da Assistência Social por meio de reuniões periódicas com grupos de famílias, visando a melhorar a qualidade de vida dessas famílias. Há também serviços voltados para públicos específicos, como população em situação de rua, idosos, pessoas com deficiência, etc. “No caso da política de assistência social – e também em outros sistemas nacionais de política, como o da saúde –, o nível federal é responsável pelas principais decisões, normas e regulamentações, além de parte importante do financiamento”, diz a professora. “Por sua vez, os municípios cuidam da implementação das ações, de modo mais ou menos coordenado pelas diretrizes federais, além de algum grau de coordenação de ações por parte dos Estados.”

A professora coordena no CEM a pesquisa Para além da transferência de renda? Desafios da articulação intersetorial de políticas sociais. Na esfera federal, as áreas de transferência de renda e assistência social são geridas por duas secretarias do Ministério da Saúde. A Secretaria Nacional de Renda de Cidadania é responsável pelas principais decisões acerca do Bolsa Família e do Cadastro Único, que permite a eventual seleção de beneficiários para diversos programas sociais. “Esse processo decisório é bastante centralizado e insulado em torno de gestores de carreira”, observa Renata.

As políticas de assistência social são geridas pela Secretaria Nacional de Assistência Social. “Este processo é muito mais pactuado federativamente, em instâncias como o Conselho Nacional de Assistência Social e a Comissão Intergestores Tripartite, e gerido pela comunidade de política da assistência, organizada a partir de ideias e objetivos que transcendem a pobreza como insuficiência de renda, destacando também outras dimensões de vulnerabilidade social.”

De acordo com a pesquisadora, a separação no núcleo decisório central – tanto em termos organizacionais, como em padrões de relações federativas e ideias-força orientando as ações – traz consigo consequências para a implementação municipal, ainda mais quando os objetivos do Bolsa Família vão além de garantir focalização e cobertura adequadas. “Se esses objetivos de integração não são bem articulados no núcleo decisório, o potencial de afetar a implementação municipal é grande, restringindo as possibilidades de extensão da proteção social não contributiva”, destaca.

Cadastramento aprimorado

Os programas de transferência de renda surgem no nível municipal, fora da assistência social, e se disseminam até a primeira experiência nacional – Bolsa Escola, no governo Fernando Henrique Cardoso –, ganhando novo escopo e escala com o Bolsa Família, a partir de 2003, no governo Lula. “Por sua vez, a assistência social luta por seu reconhecimento como política pública desde a Constituição de 1988, visando a superar um passado de benemerência e filantropia. Quando essas iniciativas são reunidas, há importantes processos de retroalimentação, mesmo com estruturas organizacionais e processos decisórios distintos. Não é possível entender os ganhos de escala do Bolsa Família sem os aprimoramentos no cadastramento”, afirma a professora.

No nível municipal, o cadastramento é feito majoritariamente nos equipamentos públicos de assistência social, em especial os Centros de Referência da Assistência Social , que ganham maior capilaridade com a consolidação do Sistema Único de Assistência Social (Suas). “Por outro lado, a partir do Cadastro Único, instrumento de política que surge para garantir a focalização e cobertura do Bolsa Família, começam a ser analisadas outras dimensões de vulnerabilidade das famílias, orientando outras ações de assistência social”, destaca Renata, e sintetiza:

“Se por um lado há reclamações acerca da sobrecarga gerada pelo Bolsa Família nas estruturas da assistência social, por outro lado há efeitos importantíssimos de aporte de recursos e de visibilidade pública para essa área de política social tradicionalmente relegada.”

A professora ressalta a contribuição do Bolsa Família no processo de construção de capacidades estatais na área da assistência. “Uma vez que cadastrar milhões de famílias não é um esforço simples, as metas de expansão do programa ajudaram a pressionar pelo maior aporte de recursos financeiros e humanos nos equipamentos de assistência, além de estimular a própria expansão da rede de equipamentos públicos da assistência”, afirma. “O próprio Suas ganha uma visibilidade importante com a legitimidade crescente do Bolsa Família, embora toda a dimensão dos serviços socioassistenciais, pilar essencial do Suas, continue ainda pouco conhecida”.

Renata alerta para o risco de “utilização seletiva”, ou seja, o uso das capacidades desenvolvidas no âmbito dos equipamentos de assistência sem uma articulação mais profunda de objetivos e perspectivas de proteção social não contributiva no âmbito decisório central. “Essa utilização seletiva diminui a partir de alguns marcos de integração de benefícios e serviços, como a própria Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social, de 2005, e também o Protocolo de Gestão Integrada de Benefícios e Serviços, de 2009”, aponta.

“Em síntese, há um campo de disputas entre distintos grupos no nível federal, mas a própria perspectiva de uma estratégia mais ambiciosa de articulação de políticas, no âmbito do Plano Brasil Sem Miséria, desde 2011, reforça a ideia de integração, e não o tensionamento”, destaca a professora. “Logicamente, no atual governo, todas essas dimensões estão sendo revistas e eventualmente desconstruídas.”

O artigo Novas agendas, novos desafios: Reflexões sobre as relações entre transferência de renda e assistência social no Brasil foi publicado na revista Novos Estudos Cebrap, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e pode ser acessado na íntegra neste link.

Mais informações: email renatabichir@gmail.com, com a professora Renata Bichir

Foto: Jefferson Rudy/ Agência Senado