Além da urgência: a necessidade de apoiar crianças pequenas que vivem em meio a conflitos

Por Joan Lombardi, Urban95

Um comentário recente publicado pelo The Lancet confirmou a infeliz verdade de que as crianças continuam a carregar desproporcionalmente os fardos físicos e psicológicos de conflitos. A guerra e a violência não somente põem as crianças em perigo físico iminente como também podem causar problemas emocionais sérios que podem persegui-las tempos depois do término do conflito.

Semana passada, a instituição de caridade Theirworld levantou esse ponto em um novo relatório importante, Safe Spaces: The Urgent Need for Early Childhood Development in Emergencies and Disaster (Locais seguros: a necessidade urgente do desenvolvimento da primeira infância em emergências e desastres). O relatório levanta alguns fatos lúcidos:

  • De acordo com a UNHCR, metade dos refugiados do mundo hoje são crianças
  • UNICEF estimou que ao menos 16 milhões de bebês nasceram em cenário de conflito em 2015
  • Frequentemente as crianças continuam em tais circunstâncias estressantes ao longo de seus primeiros anos

Sabemos que crianças muito novas são particularmente vulneráveis ao dito stress contínuo. Além das consequências físicas sérias, as crianças mais novas estão em grande perigo de trauma psicológico que impacta sua saúde imediata e de longo prazo, seu comportamento e seu aprendizado.

Crianças novas vivendo em cenários de emergência – tanto natural quanto feito pelo homem – precisam de mais atenção. Isso é claro pela combinação do comentário no The Lancet, do relatório pela Theirworld e das fotos de crianças sofrendo que infelizmente vemos nos jornais todos os dias. Ainda assim, como relata o relatório, há uma brecha séria na assistência humanitária especificamente focada no desenvolvimento da primeira-infância. Para cutucar essa brecha, o relatório faz uma série de recomendações incluindo:

  • Todos os planos de resposta humanitária deveriam incluir metas para necessidades holísticas de crianças de 0 a 5 anos;
  • “Locais seguros” deveriam ser estabelecidos para mulheres grávidas, mães e cuidadores, e bebês e crianças pequenas (0-5) onde suas necessidades físicas, psicosociais e cognitivas possam ser atendidas
  • O financiamento pelo fundo recentemente lançado, Education Cannot Wait, deveria priorizar o apoio no desenvolvimento da primeira-infância e do pré-primário

Programas de primeira-infância podem ser locais seguros para as crianças pequenas e suas famílias e podem fornecer o oásis que necessitam em meio ao caos.

Enquanto o passo mais importante é que os líderes políticos ajam seriamente para acabar com a guerra e outros termos de violência, as crianças que estão sofrendo não podem esperar por esse dia. Bebês e crianças novas vivendo em crise e violência e seus cuidadores precisam de apoio e investimento muito maiores. É além da urgência.

 

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Professor usa ruas, escadas e vielas do Glicério para dar aulas públicas abertas

Por Terciane Alves

Urbanização desafia cidades a se tornarem saudáveis às crianças

Parceria da Bernard van Leer Fountation com o Instituto Brasiliana pesquisa ações focadas na infância em região do centro envelhecido de São Paulo, área marcada por habitações precárias e insalubre à vivência de crianças e famílias.  Acordo de Cooperação Técnica com a Prefeitura de São Paulo,  assinado em julho, assegura monitoramento de projeto no Glicério e escuta qualitativa da comunidade. Um balanço prévio de ações destaca que atividades focadas nas famílias com crianças exigem ações intersetoriais, integradas e que exercitem a escuta de qualidade com crianças e famílias.

“A urbanização está rapidamente definindo o futuro do nosso planeta. Hoje, mais de metade da população mundial vive em cidades, incluindo mais de 1 bilhão de crianças – número que não para de crescer à medida que mais famílias são atraídas para as cidades em busca de um futuro melhor. No entanto, além de novas oportunidades, as cidades também representam novos desafios para as famílias, como poluição, habitações apertadas, longos trajetos e altos índices de criminalidade”, com essa afirmação, a solução Urban95, da Bernard van Leer Foundation, fundamenta a estratégia que pretende sensibilizar influenciadores de políticas públicas para a infância em todo o mundo, construindo uma rede de atores para criar cidades mais amigáveis às crianças.

No guarda-chuva da estratégia Urban95, o entrelaçamento das três instituições (Van Leer, Instituto Brasiliana e Prefeitura de São Paulo, por meio da São Paulo Carinhosa – política de cuidados à infância do município) deu origem ao São Paulo 95 centímetros, projeto e marca que estimula estudos e ações de desenvolvimento urbano e arquitetura com foco no crescimento saudável da criança.

O objetivo é mensurar como as políticas públicas foram realizadas na região do Glicério, no âmbito do desenvolvimento da primeira infância de 2013 para cá, sua percepção pela comunidade, sugestões de aprimoramento e recursos para dar escala ao programa e aplicá-lo em outras regiões.

Leonardo Yanez, consultor sênior da BvLF para a América Latina, explica que a solução Urban95 faz uma pergunta chave ao líderes das cidades, aos urbanistas, aos arquitetos e engenheiros: “Se você pudesse ver a cidade de uma elevação de 95 cm – a altura média de uma criança de 3 anos de idade – o que você faria diferente?”

A BvLF não esconde ter buscado inspiração no pedagogo italiano Francisco Tonucci, que se baseia na convicção de que, se fizermos uma cidade boa para as crianças, ela será boa para todos. E se o planejamento urbano priorizar a criança, a cidade será boa para todos.

A Coordenadora da Política Municipal para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância na Cidade, criada em 2013, (São Paulo Carinhosa), Ana Estela Haddad, explica que desde o início o comitê gestor da São Paulo Carinhosa desenvolveu um conjunto de ações, envolvendo 14 secretarias de governo, com o propósito de promover o desenvolvimento integral da criança na capital. No centro envelhecido, houve um diagnóstico de que atuar com mais ênfase no suporte às famílias que viviam nas pensões seria fundamental para garantir maior equidade à região.

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A versão original no site da Fundação Bernard Van Leer:

Designing cities that support healthy child development

Urbanisation is rapidly shaping the future of our planet. Today, more than half of the world is living in cities, including more than 1 billion children – a number that is increasing as more families are drawn to cities in search of a better future. Along with new opportunities, however, cities also pose new challenges for families, such as pollution, cramped housing, long commutes and high crime rates.

Urban95 asks city leaders, urban planners, architects and engineers the question: if you could see the city from an elevation of 95 cm – the average height of a healthy 3 year old – what would you do differently? It is premised on the belief that if we want to make a city livable for everyone, planning from the vantage point of a toddler is the best place to start.

In contrast to Parents+, this is an area where much less existing work has been done and where our goal is to work with partners to develop and test a new methodology for urban planning. To achieve this, we will catalogue planning and design innovations that improve young children’s health and development in cities around the world and partner with a set of pioneering cities to test this approach and measure its effects for both children and for the city as a whole.

In the coming years, the foundation will focus on:

  • Establishing strategic partnerships with pioneering cities to apply Urban95 design principles and to demonstrate the benefits to children and to the city as a whole
  • Developing a replicable method of technical assistance to help urban planners mainstream Urban95 design principles throughout the city planning process
  • Cataloguing and promoting planning and design innovations that improve young children’s health and development in cities around the world